A China e a inovação
Dois amigos encontram-se na rua. “- O que é que tens feito?”, pergunta um. “- Não tenho feito nada. Compro tudo feito!”, responde o outro. Com algumas honrosas exceções é esta a impressão que colhemos da Europa em que hoje vivemos: passámos a comprar tudo feito!
Um exemplo são as redes de telemóveis, uma indústria inventada na Europa e em que a esta sempre deu cartas, tendo conseguido que a norma GSM se tornasse dominante em todo o Mundo. O coração de uma rede GSM são os elementos de rede, conhecidos por siglas criptográficas, como MSC, HLR, e BTS. Trata-se, na sua essência, de computadores que correm programas especializados; esta área representa o ‘nec plus ultra’ das redes de telemóveis.
Quando fizemos o lançamento da Optimus, as empresas europeias Ericsson, Alcatel, Siemens e a Nokia eram os fornecedores dominantes dos elementos de rede. Nem se ouvia falar de empresas chinesas.
Quando mais tarde preparámos o lançamento da OniWay, que apostava na, então emergente, tecnologia 3G (terceira geração), os fornecedores europeus mantinham a sua importância, embora os fornecedores americanos tivessem reforçado protagonismo. Continuava a não se ouvir falar de fornecedores chineses.
Está agora em lançamento uma nova geração de redes móveis, a 4G ou LTE (Long Term Evolution), a qual promete conseguir a convergência entre a internet e a as redes móveis. Nesta tecnologia, a empresa chinesa Huawei conseguiu, já, uma quota de mercado relevante e terá sido o maior fornecedor de Estações de Base (BTS), na Europa, durante 2011, batendo a Ericsson e a Nokia Siemens que ficaram em segundo e terceiro lugar!
Por outro lado, a China tornou-se dominante nas indústrias de energia solar e de vento, dispondo das tecnologias mais avançadas do mercado na fileira solar. No que refere a mobilidade elétrica, o governo chinês anunciou o objectivo de ter nas ruas mais de cinco milhões de veículos elétricos e híbridos ‘plug-in’ em 2020, o que tenderá a dar à China o controlo desta tecnologia.
O país que inventou a pólvora e a imprensa alia, hoje, fabrico competitivo com o domínio da tecnologia. Se pretendermos manter minimamente o nosso nível de vida, temos de deixar de comprar tudo feito e voltar a fazer coisas. Felizmente começam a aparecer regularmente, no País, ‘start-ups’ inovadoras que podem ajudar a fazer a diferença.
O jogo da inovação faz-se cooperando, e quanto mais se partilha mais se consegue; neste jogo, temos de ver a China como um aliado e não como um inimigo. Portugal está bem posicionado para servir de charneira a este intercâmbio; afinal, ninguém se pode gabar de percorrer os caminhos do Oriente há mais tempo do que nós.
António Vidigal,
11º PADE e Presidente executivo da EDP Inovação




