Ética, Negócios e Banca

1. Num famoso artigo publicado em 1981, Peter Drucker chocou os seus admiradores e irritou os seus críticos ao negar vigorosamente a entidade ou necessidade da ‘ética empresarial’: a ideia de uma ética exclusiva ou específica dos negócios. O fundamento central do seu argumento é duplo: por um lado, de acordo com a filosofia moral do Ocidente, só o indivíduo é sujeito moral (e, portanto, as organizações não o são); por outro, os princípios éticos são universais, embora se apliquem tendo em conta as circunstâncias. É certo que a empresa enfrenta problemas morais típicos. Contudo, Drucker via a business ethics como uma moda nefasta, resquício da herança puritana, que tenderia a impor cargas ilegítimas sobre as organizações. A seu favor, podemos reconhecer, realmente – por detrás do discurso banal sobre a ‘ética empresarial’ – uma certa desconfiança ou mesmo desprezo pelas actividades comercial e financeira (de longínqua raiz greco-romana) misturada com aquela hostilidade face aos empresários de que falava Schumpeter. Neste horizonte, o lucro seria um rendimento ‘suspeito’, olhado de soslaio, que deveria ser recoberto pelo manto diáfano da ‘responsabilidade social’ para granjear honorabilidade. Noutros casos, a ética empresarial será apenas retórica politicamente correcta ou exercício de marketing e window-dressing, quando não manifestação de má consciência.

2. Assim, é necessário recordar, antes do mais, a ‘bondade ontológica’ e o valor social da empresa: proporciona bens e serviços desejados pelas pessoas, criando ou acrescentando valor que distribui por clientes, trabalhadores, fornecedores, accionistas e outras partes interessadas, pressupondo um processo respeitoso e honrado de acordos voluntários entre eles (sem violência, fraude ou abuso de posição dominante). Por outras palavras, o bem comum não é extrínseco ou exógeno à empresa. E o lucro, em geral, é simplesmente a remuneração (justa e socialmente necessária) do risco, inovação e energia empresarial. É ainda um indicador de que a empresa cumpre a sua primeira responsabilidade perante a sociedade: criar valor económico, em termos que garantam a sua continuidade no longo prazo (ou seja, inter alia, lucrativos).

3. Entretanto, assistimos à generalização de práticas comerciais predatórias, à avidez na gratificação imediata, à irresponsabilidade pessoal, à recusa em aceitar ou antecipar consequências das próprias acções, à tendência para olhar os incentivos materiais como se fossem a medida e propósito únicos do trabalho humano, à subversão da relação da agência entre accionistas e gestores, etc., e respectivas sequelas. Com efeito, a actual crise económico-financeira nasceu não tanto da incompetência e miopia de alguns e da falta de memória de outros, quanto de uma degradação generalizada dos padrões éticos. A crise terá demonstrado que o sistema financeiro não dispensa temperança por parte de investidores e credores, responsabilidade por parte de consumidores e devedores, veracidade por parte das agências de rating, justiça por parte das instituições financeiras, humildade por parte dos economistas, coragem por parte de legisladores e reguladores, prudência por parte de todos.

4. Enfim, parece que Peter Drucker tinha razão no ponto essencial: para ser honrado, prudente, justo, forte e sensível ao bem comum não se requer ‘ética empresarial’. Basta a ética, sem adjectivos. Basta o que Drucker chamava o ‘teste do espelho’ – que tipo de pessoa quero ver ao espelho no dia seguinte de manhã? – atribuindo a esse espelho o sortilégio do retrato de Dorian Gray, capaz de reflectir no rosto as marcas da deformidade moral que a mentira, cobardia, ganância, fraude, abuso e preguiça vincam na alma…

5. Daqui se deduz, também, a insuficiência dos sistemas de supervisão, regulação e codificação do bom governo ou da boa conduta, se forem tomados como sucedâneo mecânico da honradez, prudência e justiça pessoais. Com efeito, se for assim, a insistência nesses dispositivos extrínsecos pode até revelar-se contraproducente. A ética passaria a ser um ‘departamento’, um assunto de técnica normativa e organizativa. E a proliferação regulatória apenas suscitaria maior astúcia no desenvolvimento de modos originais de a iludir; ou, na melhor das hipóteses, centraria a preocupação dos agentes no respeito formal das normas mais do que na eticidade e prudência substanciais dos procedimentos em causa. Isto já aconteceu, com maus resultados: a lei não dispensa a consciência individual e a interiorização do que é ‘bom’.

Não pretendo retirar valor aos mecanismos de supervisão e códigos deontológicos. Até porque o bom governo também não se garante apenas com boas intenções. Alerto apenas para a importância de estar consciente dos seus limites: por muitas normas de bom comportamento e por muitas sanções que haja, sem disposição ética não pode haver bom governo, tal como não o pode haver sem prudência e competência.

6. Tudo isto afecta a Banca de modo particular. O fulcro do negócio bancário é o ‘crédito’, a credibilidade, a confiança: crédito que os Bancos concedem às pessoas (individuais e colectivas) e a outros Bancos; crédito que as pessoas concedem aos Bancos e a outras pessoas. Acresce que os bens e serviços financeiros são ‘especiais’: o mercado funciona melhor quando as pessoas sabem e compreendem o que compram, quando existe alguma simetria de informação entre a oferta e a procura. Daí, a maior exigência de confiança moral. A credibilidade é não apenas o ponto de apoio da alavanca financeira, mas o oxigénio de todo o sistema económico e da vida social. A crise financeira que ainda testemunhamos terá resultado, precisamente, do nosso fracasso em reconhecer o alcance da intercomunicabilidade humana e a extensão do ‘multiplicador de confiança’ – do ‘multiplicador ético’ –, da nossa falha em perceber que o talento e virtudes de cada um (na medida em que geram ou minam a confiança moral) afectam o risco sistémico essencial, afectam a inteira comunidade de que fazemos parte.

Pedro da Rosa Ferro - Professor da AESE

2 comentários a este post

  1. Comentado por paulo moreira a 20 de Junho de 2011 às 18:39

    Prof. Pedro

    em qual livro do Drucker ele comenta a questão da etica na empresa?

    agradeço sua resposta

    Prof. Paulo Moreira

  2. Comentado por Pedro Ferro a 28 de Junho de 2011 às 16:40

    Caro prof. Paulo Moreira

    Peter Drucker trata este tema no artigo “What is Business Ethics?”, publicado na revista Public Interest, 63, 1981. Creio que o artigo foi depois recolhido num dos seus livros, que agora não recordo.
    Melhores cumprimentos
    Pedro Ferro

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