Voluntária, eu?

Há coisas que não faço por dinheiro nenhum. Mas posso fazê-las porque sim, na minha casa, à minha família, aos meus amigos. Como posso fazê-las ao mais pobre dos pobres, maltrapilho e malcheiroso, doente ou incapaz. Aqui, estou a dar uma parte do meu tempo, das minhas energias, do que sei, do meu descanso ou das minhas férias. E faço-o a troco de nada, só porque reconheço nesse ser outra pessoa. Estou a dar uma parte da minha vida, uma parte de mim. Começo então a fazer voluntariado.

O voluntariado é das atividades mais nobres a que posso dedicar-me. Hei de desempenhá-lo com a mesma competência que procuro ter no trabalho profissional remunerado que me garante o sustento.

A maior parte das pessoas precisa de trabalhar para viver, não pode dar-se ao luxo de trabalhar todo o dia a troco de nada – penso que, se pudesse, devia fazê-lo. Mas pode ajudar livremente quem está ao lado e precisa.

O voluntariado não é um must curricular de jovens com elevado potencial – isso seria investimento for profit futuro.

É um dos mais valiosos recursos humanos. Associado à capacidade criativa pode ajudar a ultrapassar a gravíssima situação – financeira, ética, humana – que atravessamos.


Beatriz Abreu
,
11º PDE e Diretora do GOS.
Publicado na revista “Aposta” nº105 de abril de 2012

Como será a quarta vida?

Se vivemos mais, temos de trabalhar mais. É da mais elementar inteligência.
Portugal precisa. E agradece.

A diferença entre as receitas e as despesas da Segurança Social atingiu o mínimo histórico de 63 milhões de euros. O valor, que consta do orçamento retificativo, traduz uma quebra de 366 milhões de euros em relação ao saldo do ano passado. A quebra é tão grande que este pode ser um sinal de que o sistema está à beira do colapso. Mas mais grave ainda, pela primeira vez, as contribuições não chegam para pagar as pensões, criando um buraco de quase 900 milhões.

Este é o maior problema que Portugal tem em mãos. Se a segurança social, que paga reformas e subsídios de desemprego, entrar em “default”, todo o tecido social entrará rapidamente em falência. A macro economia descerá do Olimpo dos economistas e vai abater-se como as pragas do Egito em cima do dia a dia dos portugeses. Ninguém sai ileso. É a desintegração interna.

Embora não exista nenhum número sobre quanto representa o consumo dos pensionistas no consumo privado global, por observação simples da realidade, percebe-se que é muito grande. Grande demais.

Com o desemprego em 15%, uma população muito envelhecida e sem uma estratégia para adequar os recursos humanos às necessidades da nação (será que isso é possível?) a segurança social representa muito mais que a sobrevivência dos pensionistas. As pensões são muitas vezes o único rendimento fixo e considerável de pais, filhos, e netos.

Se alguma se deixarem de pagar as reformas Portugal entrará definitivamente no tal abismo para onde ainda nunca se deu o passo em frente.

Durante anos olhámos para a segurança social como se fosse um poço sem fundo, ou uma divindade sagrada e admirável que apesar da conjuntura aparecia sempre coberta de encómios e triplos A. Por isso pedir a reforma antecipada era uma coisa normal e socialmente apreciada. Como se não houvesse distinção nenhuma entre estar trabalhar ou apenas a receber.

Políticos, gestores públicos, professores, juízes, médicos, em romaria grega, muito antes dos 65 anos, às vezes 10 anos antes disso, abalados pelo cansaço das suas desgastantes profissões tiravam-se do “deve” e punham-se no “haver” das contas do país. Como se não houvesse amanhã. E agora?

Ainda assim há bons exemplos. Muitos médicos regressaram ao ativo depois de se terem reformado. E contribuem agora, com tempo e experiência nos hospitais e centros de saúde. Poupando simultaneamente um investimento adicional em formação quando há “menos possibilidades”. São necessários mais exemplos ou outra legislação.

Portugal precisa dessa experiência e saber. Não pode viver sem ela.

José Manuel Diogo
35º PADE e Diretor geral da Agenda Setting
Post publicado em Agenda Setting, a 4 de maio de 2012