Reflexões em fim de PADE

0. O PRINCÍPIO

No primeiro dia do 37º PADE, a propósito da formação do dirigente, o Diretor do Programa referiu as grandes epopeias clássicas, nomeadamente as de Homero e de Tolkien.
A referência acompanhou-me ao longo de todo o PADE.
A Odisseia, em concreto, estabeleceu-se na minha mente como um pano de fundo, apenas apercebido nas primeiras semanas, em que o apelo da novidade ocupou todo o palco encheu todo o espaço com movimento e energia. Progressivamente, a viagem de Ulisses foi ganhando preponderância até ao ponto de se tornar a referência estruturante, o fio condutor do meu PADE.


1. A ILHA

Foi assim que comecei a ver a AESE como uma ilha.
Na imaginação ocidental as ilhas são lugares fechados, fora do espaço e do tempo, onde o viajante se encerra, ou é encerrado, e é subtraído ao tempo.
Chega-se à ilha sozinho.
As razões que levam cada um à ilha são variadas: uns encontram-na depois de uma tempestade, outros depois de um período de reflexão que os empurrou para uma deriva, alguns partiram numa exploração que os fez descobri-la, a outros foi uma procura deliberada que determinou a rota em direção àquelas coordenadas… cada viajante tem razões diferentes e vem de espaços e tempos diferentes.
Mas cada um chega à ilha sozinho. Cada um traz os seus próprios desafios, os seus conhecimentos, as suas habilidades; e os seus perigos.
Encontramos companheiros, que chegaram sozinhos como nós.
Conhecemos os professores e os habitantes da ilha.
Criamos laços.
Somos postos à prova. Cada sessão, cada caso, embora tratado em grupo, representa uma prova diferente para cada um de nós.
Aprendemos juntos, através da partilha das nossas histórias e experiências. Recontamos a nossa história – como Ulisses. No recontar, a história é revista, reenquadrada, redefinida; reinventamo-nos, reconstruímo-nos, retraçamos o rumo.
Gostamos de estar mas não queremos ficar. Não viemos para ficar: a nossa viagem é noutro espaço e noutro tempo.
Quando partimos, sozinhos, como chegámos, levamos dentro de nós o que vimos, o que aprendemos, o que partilhámos; cada um leva um bocado de todos os outros. A nossa vivência na ilha fica para sempre connosco.
Não voltaremos àquela ilha – é uma impossibilidade. As coordenadas que nos permitiram encontrar aquele espaço/tempo são irrepetíveis.
Combinamos voltar a encontrar-nos, certamente acontecerá, mas será noutras “ilhas”.


2. INTELIGÊNCIA

No PADE, aprendi que a inteligência é uma construção.
Deixei de lado a ideia da superioridade de uma inteligência etérea, rápida, intuitiva, descontínua, que, num relampejar súbito, nos faz ver a solução, o caminho a seguir.
Aprendi que o que importa é apreender a totalidade dos elementos concretos de cada caso e os fios muito finos que os ligam. Há que construir uma proposta tecida pacientemente, em malhas cerradas, sem intervalos, sem lacunas, sem cedências ao excesso.
Esta construção morosa produz pensamentos sagazes e precisos, caminhos que ligam umas coisas às outras, decisões sólidas que se fecham num laço que não se pode desfazer.
Para conseguir uma boa construção é preciso estar atento e querer saber tudo, ver todas as coisas, multiplicar a atenção, interrogar todas as possibilidades; e compreender os outros, ver através dos olhos dos outros.
Cada solução é adequada a um momento e a uma situação precisas, com exatidão.
Cada construção responde a um desafio concreto, não é transportável nem adaptável a outros. Se surge um desafio novo temos que recomeçar do princípio, com a mesma perseverança e a mesma atenção.


3. A METAMORFOSE

O método do caso obriga a trabalhar uma mente plástica, sensível.
Pratica-se o ser capazes de nos transformarmos, de ver os acontecimentos com os olhos dos outros e identificarmo-nos com eles.
Praticamos muito, em vários momentos: ao ler o caso a sós, no grupo de trabalho, na sessão comum. Em cada momento sucessivo a nossa construção vai crescendo, vai sendo tecida com os elementos novos que os outros nos dão.
Os outros são muitos: são os nossos companheiros, são os professores, são os protagonistas dos casos, nos seus tempos e nos seus espaços.
Ao princípio desiludia que os casos fossem datados; quando a mente se tornou mais flexível, esse passou a constituir um desafio acrescido: mais uma dimensão a considerar, a mobilidade no tempo.
A minha mente tornou-se mais maleável e mais colorida, mais multiforme, mais aberta.
Adquiri o extraordinário dom da metamorfose.
A aquisição deste dom é irreversível.


4. O FIM

What we call the beginning is often the end
And to make an end is to make a beginning.
The end is where we start from.
T. S. Eliot, Little Gidding, from Four Quartets




Teresa Caetano
37º PADE e Direcção de Informação e Consumidores da ANACOM

O Valor da Água

A água tem um valor inquestionável. Mas será que esse valor está refletido no preço?
Em novembro de 2002, o então ministro do Ambiente, Isaltino Morais, afirmou que “os portugueses devem preparar-se para pagar mais pela água que consomem”.
O seu sucessor, Amílcar Theias, também aborda o assunto e, em março de 2004, diz, para a TSF, que “a água se paga barato demais (…). A água, em Portugal, é muito barata, neste momento”.
Luís Nobre Guedes, em outubro de 2004, também afirmava, na sua qualidade de ministro do Ambiente do governo de Santana Lopes, “que a sua principal preocupação se dirigia a (…) dar unidade aos tarifários (…)”.
Já na vigência de outro governo, Francisco Nunes Correia assume, em novembro de 2005, que “os preços da água estão desfasados (…) é preciso corrigir esta situação”. Mas, este mesmo ministro, do primeiro governo de José Sócrates, em agosto de 2008, veio negar “que o Governo tenha a intenção de aumentar o preço da água”. Por fim, em março de 2009, o mesmo responsável politico, durante a visita ao Pavilhão de Portugal no 5.º Fórum Mundial da Água, admitiu que “os preços da água têm de ser corrigidos”.
Dulce Pássaro, que sucedeu a Nunes Correia, no segundo governo de José Sócrates, é perentória na assunção de que “o preço da água ao consumidor vai ter que subir”, um aumento que a ministra considerava “inevitável e necessário”. Estas declarações foram proferidas em maio de 2010, mas, já antes, a ministra havia afirmado, em entrevista ao Público que, “até 2012, os portugueses estarão a pagar um novo preço pela água (…) é um imperativo comunitário e é fundamental para dar sustentabilidade económica e ambiental ao sector (…). É a aplicação do princípio do poluidor-pagador”.
Este imperativo comunitário chega-nos através da Comissão Europeia, que considera que Portugal deve aumentar progressivamente as tarifas da água, por forma a que os pagamentos dos utilizadores consigam suportar os custos reais do abastecimento. “É o princípio do utilizador/pagador”, afirma o diretor-geral de Política Regional daquela instituição. Ora aqui está um conjunto de declarações coerentes ao fim de quase 10 anos de contradições. Até as organizações ambientalistas concordam, pela voz de Francisco Ferreira, da Quercus, ao corroborar da opinião da ministra, dizendo que “é necessário explicar aos portugueses que a água que consumimos está barata (…)”.
Mudou o governo e a saga recomeça quando, no final do ano passado, a ministra Assunção Cristas admite um aumento do preço da água à custa da privatização da empresa Águas de Portugal. Na mesma senda, o “seu” secretário de estado, Pedro Afonso de Paulo, reafirma, em artigo de opinião publicado no Expresso, “a necessidade de refletir no preço da água, resíduos e energia o seu custo real”.
Mais recentemente, em entrevista ao Diário Económico, a ministra descreve que “a sustentabilidade do sector das águas em Portugal implica um ajuste na tarifa paga pelos consumidores (…) precisamos de equilíbrio para garantir a sustentabilidade do sistema”. Mas, tal e qual um seu antecessor, apressa-se a corrigir o que foi publicado e, no mesmo dia 9 de abril, ao fim da tarde, assegurou que “o preço da água canalizada não aumentará este ano (…)”.
Em que ficamos? De que é que estamos à espera? Basta que os responsáveis pelo Ambiente, em Portugal, respondam, pelo menos, a uma das minhas três perguntas. Eu, pelo menos, já ficaria satisfeito.

A água tem um valor inquestionável. Mas será que esse valor está refletido no preço?Em novembro de 2002, o então ministro do Ambiente, Isaltino Morais, afirmou que “os portugueses devem preparar-se para pagar mais pela água que consomem”.O seu sucessor, Amílcar Theias, também aborda o assunto e, em março de 2004, diz, para a TSF, que “a água se paga barato demais (…). A água, em Portugal, é muito barata, neste momento”.Luís Nobre Guedes, em outubro de 2004, também afirmava, na sua qualidade de ministro do Ambiente do governo de Santana Lopes, “que a sua principal preocupação se dirigia a (…) dar unidade aos tarifários (…)”.Já na vigência de outro governo, Francisco Nunes Correia assume, em novembro de 2005, que “os preços da água estão desfasados (…) é preciso corrigir esta situação”. Mas, este mesmo ministro, do primeiro governo de José Sócrates, em agosto de 2008, veio negar “que o Governo tenha a intenção de aumentar o preço da água”. Por fim, em março de 2009, o mesmo responsável politico, durante a visita ao Pavilhão de Portugal no 5.º Fórum Mundial da Água, admitiu que “os preços da água têm de ser corrigidos”.Dulce Pássaro, que sucedeu a Nunes Correia, no segundo governo de José Sócrates, é perentória na assunção de que “o preço da água ao consumidor vai ter que subir”, um aumento que a ministra considerava “inevitável e necessário”. Estas declarações foram proferidas em maio de 2010, mas, já antes, a ministra havia afirmado, em entrevista ao Público que, “até 2012, os portugueses estarão a pagar um novo preço pela água (…) é um imperativo comunitário e é fundamental para dar sustentabilidade económica e ambiental ao sector (…). É a aplicação do princípio do poluidor-pagador”.Este imperativo comunitário chega-nos através da Comissão Europeia, que considera que Portugal deve aumentar progressivamente as tarifas da água, por forma a que os pagamentos dos utilizadores consigam suportar os custos reais do abastecimento. “É o princípio do utilizador/pagador”, afirma o diretor-geral de Política Regional daquela instituição. Ora aqui está um conjunto de declarações coerentes ao fim de quase 10 anos de contradições.
Até as organizações ambientalistas concordam, pela voz de Francisco Ferreira, da Quercus, ao corroborar da opinião da ministra, dizendo que “é necessário explicar aos portugueses que a água que consumimos está barata (…)”.Mudou o governo e a saga recomeça quando, no final do ano passado, a ministra Assunção Cristas admite um aumento do preço da água à custa da privatização da empresa Águas de Portugal. Na mesma senda, o “seu” secretário de estado, Pedro Afonso de Paulo, reafirma, em artigo de opinião publicado no Expresso, “a necessidade de refletir no preço da água, resíduos e energia o seu custo real”.Mais recentemente, em entrevista ao Diário Económico, a ministra descreve que “a sustentabilidade do sector das águas em Portugal implica um ajuste na tarifa paga pelos consumidores (…) precisamos de equilíbrio para garantir a sustentabilidade do sistema”. Mas, tal e qual um seu antecessor, apressa-se a corrigir o que foi publicado e, no mesmo dia 9 de abril, ao fim da tarde, assegurou que “o preço da água canalizada não aumentará este ano (…)”.Em que ficamos? De que é que estamos à espera? Basta que os responsáveis pelo Ambiente, em Portugal, respondam, pelo menos, a uma das minhas três perguntas. Eu, pelo menos, já ficaria satisfeito.

Nuno Campilho
19º PDE e 11º Executive MBA AESE/IESE
in Água&Ambiente