Como será a quarta vida?

Se vivemos mais, temos de trabalhar mais. É da mais elementar inteligência.
Portugal precisa. E agradece.

A diferença entre as receitas e as despesas da Segurança Social atingiu o mínimo histórico de 63 milhões de euros. O valor, que consta do orçamento retificativo, traduz uma quebra de 366 milhões de euros em relação ao saldo do ano passado. A quebra é tão grande que este pode ser um sinal de que o sistema está à beira do colapso. Mas mais grave ainda, pela primeira vez, as contribuições não chegam para pagar as pensões, criando um buraco de quase 900 milhões.

Este é o maior problema que Portugal tem em mãos. Se a segurança social, que paga reformas e subsídios de desemprego, entrar em “default”, todo o tecido social entrará rapidamente em falência. A macro economia descerá do Olimpo dos economistas e vai abater-se como as pragas do Egito em cima do dia a dia dos portugeses. Ninguém sai ileso. É a desintegração interna.

Embora não exista nenhum número sobre quanto representa o consumo dos pensionistas no consumo privado global, por observação simples da realidade, percebe-se que é muito grande. Grande demais.

Com o desemprego em 15%, uma população muito envelhecida e sem uma estratégia para adequar os recursos humanos às necessidades da nação (será que isso é possível?) a segurança social representa muito mais que a sobrevivência dos pensionistas. As pensões são muitas vezes o único rendimento fixo e considerável de pais, filhos, e netos.

Se alguma se deixarem de pagar as reformas Portugal entrará definitivamente no tal abismo para onde ainda nunca se deu o passo em frente.

Durante anos olhámos para a segurança social como se fosse um poço sem fundo, ou uma divindade sagrada e admirável que apesar da conjuntura aparecia sempre coberta de encómios e triplos A. Por isso pedir a reforma antecipada era uma coisa normal e socialmente apreciada. Como se não houvesse distinção nenhuma entre estar trabalhar ou apenas a receber.

Políticos, gestores públicos, professores, juízes, médicos, em romaria grega, muito antes dos 65 anos, às vezes 10 anos antes disso, abalados pelo cansaço das suas desgastantes profissões tiravam-se do “deve” e punham-se no “haver” das contas do país. Como se não houvesse amanhã. E agora?

Ainda assim há bons exemplos. Muitos médicos regressaram ao ativo depois de se terem reformado. E contribuem agora, com tempo e experiência nos hospitais e centros de saúde. Poupando simultaneamente um investimento adicional em formação quando há “menos possibilidades”. São necessários mais exemplos ou outra legislação.

Portugal precisa dessa experiência e saber. Não pode viver sem ela.

José Manuel Diogo
35º PADE e Diretor geral da Agenda Setting
Post publicado em Agenda Setting, a 4 de maio de 2012

O que faz um líder?

O Presidente do Jaipur Foot (JF) reunira alguns voluntários para irem ao Iraque colocar próteses de pé ou perna nos necessitados. Na primeira semana tinham feito e ajustado 300 próteses. Os que apareciam em cadeira de rodas ou de muletas regressavam pelo seu próprio pé…

Muitos esperavam uma prótese há mais de um ano; num teatro de violência não havia forma, mesmo pagando caro. As do JF são quase oferecidas e o custo de produção é de $35, quando algo parecido custa $8.000 nos EUA. O JF já as faz há 40 anos, com aperfeiçoamentos e em grande quantidade. Colocou mais de 300.000, atendendo hoje 20.000 pessoas por ano.

O cirurgião ortopédico, Dr. Sethi, do Hospital de Jaipur, pedira ao escultor Ram Chandra para fazer pés artificiais. Ele assim fez e foi introduzindo melhorias na funcionalidade usando borracha e madeira envolvidos em poliuretano, simulando a forma do pé, a sua consistência, os movimentos. Hoje o molde do coto faz-se com uma máquina de vácuo e a perna com moldes de areia, reduzindo o tempo de feitura e com boa adaptação da prótese, pois o rigor das formas evita atritos e incómodos.

Na sua vida útil, de 5-6 anos, a prótese não necessita de manutenção; permite andar em terrenos lamacentos das várzeas, subir às árvores, correr, andar de bicicleta, etc. Quem vá ao JF é atendido com profissionalismo: chegando a uma qualquer hora da noite é recebido com delicadeza, oferecendo-se-lhe uma refeição quente e uma marqueza para descansar, até à hora da consulta, sob a supervisão médica. Paga quem pode e os donativos cobrem o resto.

A partir de 1975 o JF foi crescendo. Com o Dr. Mehta, seu Presidente e com o sentido empreendedor, o que estava limitado a Jaipur, conta hoje com 16 brigadas móveis, prestando serviços pelo país. Tem centros de operação nos países vizinhos e conta com 60 fornecedores, fabricantes de ‘pés’.

O JF recorreu à colaboração de instituições científicas para melhorar: o ISRO-Indian Space Research Organization fornece materiais ultra-leves usados na exploração espacial, muito resistentes, para a estrutura da perna; pesam pouco e aguentam o peso do corpo. A Universidade de Stanford desenhou uma articulação mais eficaz, para o joelho.

No Iraque, uma nova esperança crescia: mães a chorar de emoção diante de filhos que não andavam há anos, a fazerem-no agora; soldados curtidos na luta esperavam a sua vez, enquanto davam vivas de alegria ao verem cada aleijado deixar as muletas e andar por si!

Eugénio Viassa Monteiro
Professor da AESE, Presidente da AAPI e autor do livro “O Despertar da Índia”.