Voluntária, eu?

Há coisas que não faço por dinheiro nenhum. Mas posso fazê-las porque sim, na minha casa, à minha família, aos meus amigos. Como posso fazê-las ao mais pobre dos pobres, maltrapilho e malcheiroso, doente ou incapaz. Aqui, estou a dar uma parte do meu tempo, das minhas energias, do que sei, do meu descanso ou das minhas férias. E faço-o a troco de nada, só porque reconheço nesse ser outra pessoa. Estou a dar uma parte da minha vida, uma parte de mim. Começo então a fazer voluntariado.

O voluntariado é das atividades mais nobres a que posso dedicar-me. Hei de desempenhá-lo com a mesma competência que procuro ter no trabalho profissional remunerado que me garante o sustento.

A maior parte das pessoas precisa de trabalhar para viver, não pode dar-se ao luxo de trabalhar todo o dia a troco de nada – penso que, se pudesse, devia fazê-lo. Mas pode ajudar livremente quem está ao lado e precisa.

O voluntariado não é um must curricular de jovens com elevado potencial – isso seria investimento for profit futuro.

É um dos mais valiosos recursos humanos. Associado à capacidade criativa pode ajudar a ultrapassar a gravíssima situação – financeira, ética, humana – que atravessamos.


Beatriz Abreu
,
11º PDE e Diretora do GOS.
Publicado na revista “Aposta” nº105 de abril de 2012

Deixo-lhe a inquietação…

Aceite o desafio para partilhar uma breve reflexão sobre o mundo das instituições de solidariedade social, dei comigo a pensar que, independentemente da forma, missão ou dimensão da instituição, o nosso ciclo de vida decorre num “mundo institucionalizado”.

Diz-nos Durkheim que uma instituição social é um mecanismo de proteção da sociedade, um conjunto de regras e procedimentos socialmente padronizados, reconhecidos e aceites pela sociedade e que permitem, estrategicamente, manter a organização do grupo e satisfazer as necessidades dos indivíduos que dele participam. Se a esta definição associarmos a palavra solidariedade, entendida como sendo um sentimento de partilha do sofrimento alheio que nos leva a prestar auxilio a quem dele necessita e nos faz envolver em causas nas quais acreditamos, chegamos assim ao mundo das instituições de solidariedade social, expressão viva da denominada sociedade civil e que é constituída por todos nós.

Posicionadas “Entre o Estado e o Mercado” (1), as instituições de solidariedade social em Portugal, maioritariamente dependentes do apoio financeiro do Estado, têm maior expressão no âmbito da prestação de serviços e bens de ação social à população mais vulnerável e desfavorecida, da qual têm a grande vantagem de estar próximas e serem conhecedoras das suas necessidades e problemas.

Num país em situação de crise, marcado por inúmeras dificuldades e escassez de recursos, as instituições de solidariedade social têm pela frente, enquanto maior rede de suporte social, grandes desafios. Se requisitos como a eficiência, a eficácia, as boas práticas e a criatividade, entre outros, sempre foram importantes para o bom funcionamento das instituições, atualmente, parecem ser determinantes para a sua continuidade. Garantir a continuidade do trabalho que desenvolvem num contexto de adversidade e mudança, sobretudo quando existem também alterações ao nível da “tipologia” das situações de pobreza e perfil das pessoas que recorrem ao seu apoio, passa necessariamente pela partilha de recursos entre instituições, por um verdadeiro trabalho em rede e por maior criatividade, quer ao nível das respostas sociais, quer ao nível da sustentabilidade financeira das instituições.

À semelhança do que acontece com as instituições, também a cada um de nós se deve colocar o desafio de partilharmos os nossos “recursos”( leia-se talentos),  de funcionarmos em rede e de, também nós, sermos criativos na forma como utilizamos os nossos talentos em prol da comunidade. E porque as instituições de solidariedade social são a expressão da sociedade civil no apoio ao próximo, e porque a sociedade civil é composta por cada um de nós, e porque a responsabilidade social começa em cada um de nós, e porque é na congregação de boas vontades e convergência de interesses que as coisas acontecem, deixo-lhe a inquietação de oferecer os seus talentos, colocando-os ao serviço das instituições, e contribuir assim para o bem comum que, ao contrário do que por vezes parece ser, é de facto de todos e para todos.

Maria Helena André
Participante do 3º GOS

(1)    HESPANHA, P  et al (2000). Entre o Estado e o Mercado. Quarteto Editora. Coimbra