Os desafios da Transformação Digital | 1

Enquadramento da Era Digital

O mundo mudou. As pessoas mudaram. A ubiquidade (a qualquer hora e em qualquer lugar) e a hiperconetividade (ligar, espalhar e cocriar), mais do que pura tecnologia, tornaram-se num novo “modo de vida” que transformou os comportamentos do indivíduo e da sociedade. Esta mudança de comportamento das pessoas, também clientes, requer um novo mindset da cultura empresarial. Há quem afirme que se trata de uma nova “revolução industrial” (a quarta), desta vez, chamada de “revolução digital” que está presente na forma como criamos e partilhamos conhecimento (conteúdos), como trabalhamos, como comunicamos e como nos relacionamos.

É a evolução tecnológica, a terceira plataforma (Mobile, Social, Big Data, Cloud), que nos permite questionar os atuais modelos de negócio e que, de uma forma geral, está a ter impactos na satisfação das necessidades das partes interessadas (em particular dos clientes, que pretendem mobilidade e conveniência), na otimização dos recursos e na otmização dos riscos. Este fenómeno, no entanto, não é novo. O que é novo é a velocidade da implementação das novas tecnologias que passou de uma escala de anos/décadas (rádio – 38 anos e televisão – 15 anos) a uma escala de meses (facebook e twitter), alcançando nos mesmos períodos cerca de 50 milhões de utilizadores. A aceleração desta tendência está correlacionada com a inovação tecnológica, com a forma de estar das pessoas que convivem fisicamente e, cada vez mais, em múltiplas redes sociais, a que acresce o fenómeno do big data e a necessidade do tratamento de elevados volumes de dados em real time, da computação via cloud, da internet das coisas, etc. A velocidade da sua adoção pela comunidade global (crowd effect) é vertiginosa.

A mobilidade e a hiperconectividade disponíveis através de dispositivos smart vendidos a preços cada vez mais acessíveis a todas as camadas populacionais elevam as oportunidades de negócio das empresas assim como as expectativas de valor a receber por parte dos clientes. Esta razão permite que um indivíduo seja detentor de múltiplos devices, com acesso a 3G/4G, que facilitam o uso da internet e de aplicações (apps) a qualquer hora e em qualquer lugar, sincronizados em real-time via cloud, o que facilita a usabilidade dos mesmos.

O uso crescente da cloud, que permite aceder a recursos informáticos virtuais, disponibilizada também a custo cada vez mais reduzido, permite-nos o armazenamento em larga escala de informação – em variedade, em elevado volume e em crescente velocidade de produção por segundo, respondendo desta forma a novas questões do mundo digital relacionadas com armazenamento, exploração de grande volume de dados, segurança e privacidade. Permite-nos também acelerar o timing alocado às diversas etapas do ciclo de vida de informação, concretamente: a estruturação dos dados para obter a informação; o estudo da informação que cria o conhecimento; a tomada de decisão, suportada por este conhecimento, que crie e capture valor para o negócio. O desafio é criar a capacidade de recolher o “rasto de dados” que as pessoas produzem, a cada segundo, no mundo digital global! Não será necessário tratar cada entrada na base de dados das organizações. Contudo, teremos de saber agregar esses dados, relacioná-los por forma a identificar padrões comportamentais e, finalmente beneficiar do valioso ativo de informação (conhecimento) na criação de novas fontes de receitas. A cloud permite-nos ainda a partilha da informação em redes que nós próprios criamos e definimos, em função das necessidades empresariais e / ou pessoais e académicas. Temos desta forma todas as condições para estarmos híper ligados em rede mundial a partir do nosso espaço local, emergindo uma nova atitude comportamental do “aqui e agora com qualidade”.

Os clientes pretendem hoje transportar o “mundo consigo” através do uso do seu mobile. Pretendem no momento (go now) fazer negócio (go shopping), a partir do local em que se encontram (go here), à hora que entendem (any time), usando sempre que possível a sua localização (geolocation, any place), sem fricção (no attrition), em segurança e com privacidade (go security).

Estamos conscientes de que a ameaça para os utilizadores da internet, individuais ou empresas, está a aumentar em quantidade (por microssegundo) e qualidade (novos métodos como sejam falsas app, falsos user ou mesmo conteúdos virais). Exige-se, portanto, a máxima segurança para a informação das empresas e para as pessoas. A segurança é um requisito obrigatório da privacidade de dados pessoais e da transaccionalidade (ex. pagamentos electrónicos). A tecnologia permite-nos, presentemente criar procedimentos de autenticação baseados na combinação de critérios mutuamente independentes, tais como, o critério do conhecimento – algo que eu sei (ex. código secreto), o critério de posse – algo que eu tenho (ex. telemóvel) e o critério da inerência – algo que eu sou (ex. voz, impressão digital, iris). Também deveremos proteger os produtos uma vez que a internet das coisas cria novas oportunidades para os informáticos maliciosos que podem representar graves ameaças para o utilizadores finais (ex. car hacker attack). As empresas precisam de dedicar tempo à manutenção da sua infra-estrutura e criar rotinas de monitorização do que realmente está acontecendo no cyber espaço. Emerge assim um novo conceito de segurança digital identificada como “the next generation security”. Saibamos ser (im)pacientes.

Artigos relacionados
2. Os múltiplos desafios da transformação digital
3. Reflexões e conclusões finais

Blog FB_1

Fernando Braga, 8º Executive MBA AESE/IESE

Impactos da “Resolução Bancária” – a história do caso Banif

11. Conclusão

A Europa desespera com a incapacidade de supervisão e regulação bancária.

O quadro de supervisão é inúmeras vezes referido como sendo o elemento essencial para assegurar o equilíbrio e a estabilidade do sistema. Assiste-se cada vez mais ao emagrecimento dos quadros do sector bancário pela via dos acordos de rescisão amigáveis (“perda de know-how especializado”), da sua capilaridade por via do encerramento de balcões, da resolução bancária (os bancos maiores vão “engolindo” os de menor dimensão) por via da resolução de bancos garantindo aos compradores o risco de negócio com capitais públicos, enfim, um conjunto de infindáveis situações que comprova que o modelo existente não responde às necessidades do sector nem da própria economia.

A Banca portuguesa continua doente.

Os ativos da Banca (créditos concedidos) resultam da conversão das poupanças (os depósitos dos clientes), essencialmente, compostos pelo financiamento de imóveis – bens não transaccionáveis (as habitações de todos nós), com indexação à Euribor, taxa que se apresenta negativa, não gerando qualquer retorno financeiro e deixando por esta via de dar cobertura ao risco de crédito. Os bancos são actualmente as maiores imobiliárias do país por via da propriedade dos imóveis que detêm, mencionados como não afetos à exploração. O crédito mal parado resulta do incumprimento dos clientes, particulares e empresas, que não liquidam atempadamente as suas dívidas. O próprio estado, à data do pedido de resgate nacional devia à banca uma quantia superior a 50 mil milhões de euros, por via das suas empresas públicas. Curiosamente, ao invés de liquidar as suas dívidas, disponibiliza-se para capitalizar a banca (com dinheiro obtido no próprio resgate), tornando-se nalguns casos accionista maioritário, como foi o caso do Banif. Trata-se de uma situação insólita, não será?

Os colaboradores ficam fragilizados.

Este é um conjunto de pessoas que representa um “número”, número que não interessa comentar. São fruto de mais uma decisão (política e das autoridades nacionais) que discriminou, sem qualquer critério com enquadramento constitucional, um conjunto de postos de trabalho (entendidos enquanto carreiras profissionais). Resumidamente, uma decisão com tratamento diferenciado, arbitrário e meramente circunstancial que atenta contra o direito salvaguardado nos contratos de trabalho, e, contra o futuro dos trabalhadores.

O enquadramento político do País/Europa entristece profundamente.

No final do dia, todos ficam impunes no que se refere à responsabilidade da decisão da medida de resolução sobre o Banif. O Banco Central Europeu (BCE) / DGComp remete para o Banco de Portugal; O BdP remete para o BCE/Governo; O Governo remete para o BdP…, e não saímos disto. Trata-se de situações irreversíveis, com impacto financeiro em unidade de “milhão de milhões” de euros no OE e, de forma direta e indireta, junto dos diversos stakeholders relacionados (País / Estado / Contribuintes / Clientes /Accionistas  / Colaboradores “fora do perímetro” / Obrigacionistas / Fornecedores / Participadas/ etc), que não é refletida convenientemente e tende a ficar esquecida.

Artigos relacionados
1. Accionista Horácio Roque
2. Resgate Nacional
3. As restrições de negócio impostas pela DGComp
4. Os aumentos de capital
5. A saída limpa
6. As contas do triénio 2012/2015
7. O 4.º trimentre de 2015
8. A decisão da resolução
9. A Oitante – veículo de liquidação
10. Impactos de resolução

Blog FB_1

Fernando Braga, 8º Executive MBA AESE/IESE